SPES
“O Deus de Jesus Cristo”?
Antes de tudo, leia-se o seguinte
trecho de artigo de D. Curzio Nitoglia:
“Ruptura entre Vaticano II
De tudo se evidencia como a doutrina sobre a “Liberdade religiosa’ em foro externo e em público para todas as correntes de pensamento filosófico e teológico promulgada pelo Concílio Vaticano II (Dignatis Humanae, 7 de dezembro de 1965) está em oposição e contradição com a Tradição apostólica e o Magistério constante da Igreja. L’Avvenire, o diário da Conferência Episcopal Italiana, em 8 de junho de 2011, publicou na página 27 um editorial de Flavio Felice intitulado Liberalismo: USA, filho do Cristianismo, no qual se lê: ‘A imprescindibilidade da pessoa humana foi elaborada por um pensador profundamente cristão, John Locke [sic]. [...] Segundo a tradição do liberalismo de inspiração cristã: Rosmini, Sturzo e outros, recordados recentemente por Bento XVI na carta enviada a Giorgio Napoli em 17 de março passado, o liberalismo é tal enquanto elege a pessoa como o fim da vida associada’. É o culto do Homem, que toma o lugar de Deus, ou a coincidentia oppositorum entre o antropocentrismo e o teocentrismo. Gaudium et spes nº 24 especifica-o: ‘O homem, única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma (propter se ipsam)’. Na homilia da 9a. Sessão do Concílio Vaticano II, em 7 de dezembro de 1965, o Papa Montini veio a proclamar: ‘A religião, que é o culto do Deus que se quis homem, e a religião — porque o é — que é o culto do homem que quer ser Deus encontraram-se. Que aconteceu? Combate, luta, anátema? Tudo isso poderia ter-se dado, mas de fato não se deu. Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo as quais se orientou o nosso Concílio. Com efeito, um imenso amor para com os homens penetrou totalmente o Concílio. A descoberta e a consideração renovada das necessidades humanas — que são tanto mais molestas quanto mais se levanta o filho desta terra — absorveram toda a atenção deste Concílio. Vós, humanistas do nosso tempo, que negais as verdades transcendentes, dai ao Concílio ao menos este louvor e reconhecei este nosso humanismo novo [ao fim e ao cabo, o humanismo integral de Jacques Maritain e Louis Jugnet]: também nós — e mais que ninguém — temos o culto do homem”. [...] O Papa João Paulo II afirma na sua segunda encíclica (de 1980), Dives in misericordia, n. 1: ‘Enquanto as várias correntes do pensamento humano no passado e no presente estão e continuam a ser propensas a dividir e até a contrapor o teocentrismo ao antropocentrismo, a Igreja [conciliar] [...] busca conectá-los [...] de forma orgânica e profunda. E isto é um dos pontos fundamentais, e talvez mais importante, do magistério do último Concílio’.”
Se tal é assim, e se Bento XVI é um verdadeiro continuador da doutrina
conciliar, como espantar-se com o epíteto “o Deus de Jesus Cristo” a que recorre
um livro do então Cardeal Ratzinger (1978), livro porém que continua a ser
publicado sob seu papado? Ou que a expressão reapareça na encíclica de Bento
XVI Spe
Salvi?
É o ápice do culto ao Homem: a redução de Cristo a alguém cujo Deus não tem
por fim senão a glória dos próprios homens. Ora, se Cristo tem um Deus, como
ser ele mesmo Deus? Naturalmente, tanto no livro como na encílica também se apresenta,
ainda que sempre entre algumas brumas, a doutrina verdadeira e tradicional. É a coincidentia oppositorum heraclíteo-hegeliana
tornada teologia – e má teologia.
Nada de novo. Nada mudou.