terça-feira, 25 de outubro de 2011

Homenagem a Sua Excelência Dom Marcel Lefebvre (1905–1991)


A Redação
de Si Si No No n°3
(março de 1993)

Sua Excelência Dom Marcel Lefebvre faleceu. Entretanto, não é o vazio que ele deixa atrás de si, mas uma herança de luz. É para nós um dever de reconhecimento e também uma necessidade do coração meditar, para a Glória de Deus, sobre o seu desaparecimento. Colocaremos, em primeiro lugar, não como se poderia esperar, o testemunho de fé que ele deixou a uma geração extraviada nas sombras das dúvidas e nas trevas da ignorância, mas antes o testemunho de sua humildade. Sim, porque este justo, que foi tratado de Bispo “rebelde”, era antes de tudo um humilde e um manso, e, observando atentamente, todas as suas admiráveis virtudes floresceram, como é normal para um filho da Igreja Católica, sobre o fundamento de sua humildade e de sua doçura.
A humildade e a doçura de Dom Lefebvre se manifestavam numa simplicidade apaziguadora que trazia ao espírito de quem dele se aproximasse a frase de Evangelho: “Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus(Mat. 18,3).
Nada mais estranho ao seu coração do que esta alta ideia de si que dissemina incríveis ruínas na Igreja de Deus. E, não obstante, até o Concílio, Dom Lefebvre não conheceu senão honras: estimado e apreciado por Pio XII, foi sucessivamente jovem Bispo Missionário na África, Vigário Apostólico da África Francófona e, além disto, depois de ter estabelecido, sem consideração com suas fadigas, a hierarquia local, Arcebispo de Dakar, Superior Geral dos Padres do Espírito Santo e, enfim, membro designado por João XXIII da Comissão Preparatória do Concílio. Mas - escreve Santo Tomás - “alguns, mesmo estando com seu corpo em primeiro lugar, se encontram, não obstante, no último na intimidade de seu coração” (In Mat., cap. XXIII, 1, 1). E Dom Lefebvre foi um deles.
Ao mesmo tempo, nada foi mais estranho a seu coração que esta humildade afetada e mal compreendida que “compromete a força da autoridade” (Santo Agostinho) ou - pior ainda - termina na humilhação da Santa Igreja de Deus. Ele foi um deses prelados que, embora estejam interiormente “diante de Deus, com temor, abaixo de todos” (Santo Agostinho), têm a prudência de não a exteriorizar por gestos que poderiam dar aos súditos “a ocasião de comprometer sua própria salvação” (S. Tom. II-II, q. 161, a. 3 ad 3). Sua humildade, sua doçura, sua simplicidade se harmonizam nele admiravelmente com a consciência de sua própria dignidade e de sua responsabilidade episcopal.

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O humilde é obediente, e Dom Lefebvre, dado que era realmente obediente à Igreja antes do Concílio, soube continuar também depois. Um “golpe de mestre de Satanás” o impelia a desobedecer à Igreja em nome da obediência, aos homens da Igreja que representavam, sob a égide das mais altas autoridades da Igreja, a “síntese de todas as heresias” (São Pio X). Ele opôs a este “golpe... de Satanás”, justamente porque era humilde, a verdadeira obediência, que é hierárquica mas não mutila a hierarquia encerrando-a nos limites do horizonte terrestre, porque, sendo ela também e antes de tudo sobrenatural, não perde jamais de vista, atrás do Vigário, o chefe invisível da Igreja. E para continuar na obediência a Cristo e a sua Igreja - obediência que não se identifica sempre, e hoje menos que nunca, com a obediência aos homens da Igreja - Dom Lefebvre escolheu a voz da “obediência real” aceitando a vergonha da “desobediência aparente”. E aqui aparece outra virtude que brilhou de maneira eminente em Dom Lefebvre, e não somente aos olhos daqueles que tiveram o privilégio de o conhecer e amar: o mais completo esquecimento de si mesmo, o mais absoluto desapego de sua própria pessoa e de toda vantagem pessoal. Na hora da provação, ele, que tinha sempre servido à Igreja e jamais se havia servido da Igreja, imitou - como lhe sugerira a Igreja na sua ordenação sacerdotal - os mistérios que tratava com tanta fé e à imitação de Cristo, deu-se a si mesmo a Ela para ver renascer a Igreja “pura e imaculada”.
O sacrifício de sua vida não lhe foi pedido, mas sim o da sua reputação e da sua honra. E ele o aceitou com a maior simplicidade, como se cumprisse o mais comezinho de seus deveres para com Deus, para com a Igreja, para com as almas.
O humilde não teme o opróbrio e a ignomínia, e Dom Lefebvre, porque era humilde, aceitou com uma imperturbável serenidade de espírito as torrentes de lama que despejavam periodicamente sobre ele, numa concordância significativa, a imprensa laicista que nele via o inimigo, a imprensa “católica” que havia feito dele o seu único inimigo, deformando sua figura e ridicularizando o seu combate pela Fé, como se o “caso Lefebvre” se reduzisse a uma questão nostálgica, sentimental, até mesmo a uma questão de... latim.
Com a mesma serenidade de espírito ele aceitou que as autoridades da Igreja, que sabiam o que faziam e que, ainda que já não tivessem fé, possuíam sempre a ciência teológica suficiente para julgá-lo com justiça, o expusessem à ignomínia pública, justificando, por suas injustas condenações, todos os insultos possíveis. Foi assim que Dom Lefebvre foi declarado “nazista”, ele, cujo pai morreu num campo de concentração nazista; foi declarado “racista” (e condenado em apelação praticamente no seu leito de morte!!!), ainda que houvesse passado sua vida de missionário na África; foi declarado “rebelde”, ainda que, em face da desobediência geral, ele continuasse a obedecer heroicamente à Igreja: foi declarado “cismático” ainda que tivesse sacrificado sua reputação para continuar a ser este fiel e digno príncipe da Igreja que os Pontífices Romanos tinham sabido apreciar até o turbilhão revolucionário do Vaticano II.
Mas Dom Lefebvre “tornou seu rosto duro como uma pedra” (Isaías, 50, 7) porque não defendia a sua própria causa: “Não se trata de nós mesmos - dizia a seus seminaristas -, trata-se da Fé”. E, porque era humilde, o zelo de Dom Lefebvre não foi jamais amargo. Na sua mansidão ele não se perguntava por que o ímpio prosperava ao passo que o justo era desprezado, ou então por que, enquanto ele era desonrado e oficialmente banido da Igreja, todos os semeadores de erros, de heresias ou de imoralidade encontravam indulgência (é preciso dizer ainda que, nesta ocasião, tivéssemos querido renunciar a toda polêmica) e favor da Roma pós-conciliar, por que em particular, enquanto se lhe recusava toda audiência, todos os piores Bispos - sobretudo franceses -, negadores dos dogmas fundamentais da Fé, promotores da contracepção, do aborto, da homossexualidade, profanadores da Eucaristia, encontravam infalivelmente crédito e escuta no Vaticano.
Se, algumas vezes, Dom Lefebvre se deteve a considerar esta dolorosa realidade, foi só para avaliar e fazer avaliar a gravidade da crise que atravessa a Igreja, mas nas suas palavras é impossível achar sequer o menor vestígio de ressentimento pessoal. Ele não amava a polêmica e pessoalmente não a utilizou senão constrangido pelas circunstâncias e nos limites necessários e convenientes para dar conta de sua obra, para iluminar as almas, para repelir a lama das calúnias sistematicamente lançadas sobre o seu “bom combate”.

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O humilde é manso e pacífico, e Dom Lefebvre foi manso e pacífico com todos. A começar com os seus inimigos, que haviam decidido em seu coração: “Opprimamus virum iustum quoniam contrarius est operibus nostris” (eliminemos o justo porque ele condena as nossas obras ímpias) (Terça-feira da Semana Santa: oficio das Laudes). Com seus tímidos amigos, os medrosos Pilatos ou os prudentes Nicodemos, que embora o estimassem e o proclamassem publicamente “um santo”, separaram sua própria causa da dele para não serem arrastados na mesma ruína. Com estes espíritos, que os excessos da atual crise na Igreja impeliam a outros excessos e que, não conseguindo arrastar a autoridade de Dom Lefebvre para o seu sedevacantismo, lhe reprovavam asperamente, como uma imperdoável fraqueza, a virtude da moderação. Manso também para com aqueles que o haviam seguido na luta, e depois, terrificados pelo peso da ignomínia de uma aparente separação de Roma e fascinados pela miragem de uma impossível reconciliação, não se limitaram a ficar em seu posto para colher todos os frutos possíveis de suas negociações com o Vaticano, mas se uniram a seus inimigos para lançar-lhe, com maior encarniçamento do que os seus inimigos, o insulto cruel de “cismático”, para justificar o seu próprio abandono e até para justificar os compromissos que se seguiriam inevitavelmente no plano doutrinal, até a lançar-lhe o insulto injurioso de não saber exatamente o que era a Tradição. Manso com todos, mas sem fraqueza com ninguém que se aventurasse a acarretar danos à Igreja. É por isso que ele não deixou a “consciência tranquila aos demolidores da Igreja” e não teve nenhuma consideração com covardias de algumas almas, caminhando reto no caminho seguro que tinha escolhido para si e para a sua Fraternidade e que consistia em preparar o renascimento da Igreja através de uma nova geração de sacerdotes, para prover as graves necessidades das almas e para “orar a Deus de todo o coração” a fim de que Ele esclareça quem deve transmitir a Verdade.

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Porque era um humilde, Dom Lefebvre cria. Que espanto hoje para o povo de Deus escandalizado um bispo que crê nas verdades imutáveis da Fé com a profundeza de um teólogo e a simplicidade de uma criança!
E, porque cria com um coração humilde, Dom Lefebvre foi inflexível em professar publicamente a imutabilidade da Verdade, que “não nos pertence, não deriva de nós, não foi inventada por nós”, mas “nos foi transmitida, nos foi dada, foi escrita e vive na Igreja e em toda história da Igreja”, e na qual todos (em primeiro lugar, e mais que os fiéis, o Papa e os Bispos) têm o dever de perseverar.
      “Não devemos ter medo - dizia a seus seminaristas -, estamos sobre um rochedo que não depende de nós... Se ele dependesse de nós, poderíamos ter medo; sou eu, são minhas ideias, eu inventei... alguma coisa nova. Não é assim, não é o nosso caso”. “Se, aqui, eu não ensino aos senhores a Verdade católica, partam, caros seminaristas, não fiquem! É seu dever.”
E, quando a crise explode com o Concílio, fazendo desabar muitas fachadas atrás das quais muitos homens da Igreja escondiam a sua descrença naquelas verdades, de que então possuíam apenas a ciência teológica, a fé de Dom Lefebvre, na perseguição de que foi objeto, resplandeceu como ouro provado no fogo. E foi justamente a perseguição o que fez dele um farol para tantos filhos da Igreja, os quais, assustados, viam ser-lhes subtraído, cada dia mais, o pão da Verdade precisamente por aqueles cujo dever era reparti-lo, viam ser-lhes oferecido o veneno quotidiano da dúvida, do erro, da heresia. Em todo lugar aonde chegava o eco da sua resistência, o nome de Dom Lefebvre, apesar da lama com que o recobriam, tornava-se para as almas retas uma advertência e um encorajamento para perseverarem na Fé de seu batismo. E assim seus próprios inimigos foram o instrumento escolhido pela Providência para que ele fosse colocado, sem o ter querido nem procurado, como uma luz sobre um candelabro, para iluminar tantos filhos da Igreja nas trevas que desciam, cada vez mais espessas, e escondiam a seus olhos a sua Santa Mãe, “coluna e fundamento da Verdade” (1 Tm. 3, 15). Sua palavra autorizada, tranquila, clara, doce, confirmava o “sensus fidei” de numerosas almas perturbadas pelas inovações radicais. Ele tinha compreendido que “Cristo é sempre o mesmo ontem, hoje e sempre”, e também sua Igreja, que nunca mudou nem mudará jamais as suas verdades imutáveis. É por isso que o “espírito do Concílio” não vem de Deus, e, se as inovações que alteram a fé são impostas em nome da obediência ao Papa, um bom católico sabe que a fidelidade a Cristo vem antes da fidelidade a seu Vigário, e que se obedece ao Vigário de Cristo para pôr-se em segurança e não para pôr em risco sua própria fé. E, se tantos católicos no mundo inteiro, incluindo os de fora do âmbito da Fraternidade, se sentiram comovidos por sua morte, é porque eles avaliaram, com o seu desaparecimento, o que significara para a sua fé a serena mas tenaz resistência de Dom Lefebvre.

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E, porque era humilde e cria, Dom Lefebvre esperou. Esperou “contra toda a esperança” na ressurreição da Igreja depois deste tempo de paixão e de agonia, e nesta firme esperança ele trabalhou para “conservar a Fé Católica... à espera de que Roma seja libertada dos liberais que a ocupam". E sobre os fundamentos da sua humildade, da sua fé e da sua esperança floresceu a sua caridade ilimitada e infatigável.
Ele nada programou, mas nada recusou do que a glória de Deus, a utilidade da Igreja, o bem das almas lhe exigiam que fizesse. E assim seu zelo apostólico alargou o seu raio de ação à medida que se lhe manifestavam as graves necessidades dos filhos da Igreja nestes tempos de provação extraordinária.
No início ele teve um grupo de seminaristas perturbados pela subversão doutrinária e disciplinar dos Seminários, e é assim que nasceu a Fraternidade São Pio X.
Depois as almas, na angústia da necessidade espiritual, voltaram-se para ele e para os seus sacerdotes em número sempre maior, de todas as partes do mundo católico, e é assim que nasceram os Priorados, os Seminários, as Ordens Religiosas, as Escolas, as Missões... até o momento em que Dom Lefebvre se deu conta de que a Providência se havia servido dele, que teria preferido “ficar na selva do Gabão”, para plantar uma árvore que estende seus ramos a todos os cantos do mundo católico, a fim de que muitas almas de boa vontade encontrem abrigo, reconforto, edificação, esperando e também preparando por sua própria santificação o apaziguamento da tempestade.
E, porque era humilde, Dom Lefebvre teve o espírito católico, universal, próprio da Igreja. Socorreu as necessidades espirituais mais ocultas, as mais ignoradas (em particular ele abriu suas casas a padres e religiosos, mesmo avançados em idade, que queriam salvar sua própria fé do aggiornamento”, e dirigiu sua solicitude pastoral para toda obra, mesmo pequena, que seu grande coração sabia reconhecer útil à Igreja, às almas). Nada foi mais contrário a seu espírito que o exclusivismo no bem, e é por isso que ele jamais conheceu a tentação de absorver nas sua próprias fundações qualquer outra iniciativa; mas o seu encorajamento paternal se estendia a quem quer que combatesse o bom combate da Fé, qualquer que fosse o posto de onde travava o combate.

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A humildade o tornou manso, a caridade o fez audacioso.
Constrangido a suprir a má vontade ou a negligência de tantos de seus confrades no episcopado, ele não se recusou nenhuma fadiga, sem se preocupou com de quem vinha ou a quem devia ser imputado este estado de urgência; e, sem fazer caso da hostilidade da qual era objeto por causa de seu zelo, não pensou senão em agir para a glória de Cristo, para a sua Igreja, para as almas. E sua caridade atingiu o cume do heroísmo quando a iniciativa desastrosa, e que não será nunca bastante deplorada, de Assis o convenceu de que o reerguimento esperado estava ainda muito distante. Então, considerou como seu último dever assegurar, com a continuidade de sua Fraternidade sacerdotal, o socorro espiritual às almas enquanto durasse a crise da Igreja. Previu o golpe que o atingiria e que o levaria a morrer oficialmente “excomungado”. Ele que dizia não ter jamais desejado ir à Terra Santa, porque a Terra Santa - para ele - era Roma! Mas ele avaliou também o infortúnio de tantas almas que já não tinham confiança na fé de seus próprios pastores e estavam privadas não somente dos meios necessários à sua própria santificação, mas até dos meios indispensáveis à salvação. E então, consultando sua fé, sua esperança, sua caridade, confortado pela tradição maternal da Igreja de fazer cessar, em caso de extrema necessidade particular ou de grave necessidade pública, toda reserva sobre o poder de ordem de seus ministros, a fim de que nenhuma alma se perca por motivos de limitações jurisdicionais, ele desenvolveu todo o seu poder de ordem consagrando quatro Bispos “para” sua Fraternidade. As modalidades do ato atestavam com que espírito Dom Lefebvre executava esta decisão grave: precisando aos futuros Bispos que ele iria consagrar que lhes conferia unicamente o poder de ordem e obrigando-os a depor, após o retorno à normalidade na Igreja, “a graça de seu episcopado nas mãos do Sucessor de Pedro”, Dom Lefebvre confessava e punha a salvo o Primado de jurisdição do Pontífice Romano e afastava toda a suspeita de querer criar uma igreja paralela à única Igreja Católica.
Quiseram, não obstante, proclamar um cisma, mas as almas retas compreenderam que o bom Pastor havia aceitado atingir, por amor a elas, o fundo da abjeção, e elas lhe ficaram agradecidas. A veneração, com a qual tantos bons filhos cercaram seus restos mortais de Bispo oficialmente “excomungado”, está aí para atestá-lo.

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Numa entrevista a 30 Dias (março de 1991), o cardeal Gagnon falou de um “carisma” de Dom Lefebvre, mas ele não parece ter compreendido que o carisma de Dom Lefebvre provinha de sua santidade. A santidade, esta flor que não nasce espontaneamente no coração dos filhos de Adão, a santidade de Dom Lefebvre, feita de todas as admiráveis virtudes que florescem somente na Igreja Católica, em particular a sua humildade, foi aos olhos de todos, inclusive dos que não conhecem nem a teologia nem o direito canônico, o selo impresso por Deus no testemunho dado por Dom Lefebvre à Fé imutável da Igreja. E a sua morte imprimiu nele o último selo. Prevendo, contrariamente às previsões dos que o cercavam, seu próprio fim, ele quis todo o reconforto da Santa Igreja Católica e partiu com uma consciência serena ao encontro do Divino Juiz, ao qual ele desde muito tempo tinha confiado sua causa, nada podendo esperar dos homens. E ele se recusava a realizar atos ou pronunciar palavras que lançassem dúvidas sobre a justeza da causa pela qual havia lutado e se havia sacrificado a si mesmo.

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     Santo Tomás diz que: “Deus permite ao demônio enganar certas pessoas em certos tempos e em certos lugares, conforme a razão oculta de seus juízos. No entanto, sempre, pela paixão de Cristo se encontra preparado o remédio, em virtude do qual é possível proteger-se dos embustes do demônio mesmo no tempo do Anticristo (S. Teol., III, q. 49, a. 2 ad 3).
Não sabemos se chegamos aos tempos do Anticristo. É certo que há tempos do Anticristo e é certo que Dom Lefebvre e sua obra, enquanto se multiplicava o número de enganadores e dos enganados, são os mais visíveis remédios oferecidos pela Providência de Deus a tantas almas para defendê-las da sedução do demônio.

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“Vir obediens loquetur victoriam”: o homem obediente cantará vitória, e Dom Lefebvre, por ter sido realmente obediente, canta já vitória por sua vida, sua morte, sua memória, suas virtudes, suas palavras, e seus escritos que permanecerão para testemunhar, inclusive nos Arquivos do Santo Ofício, a retidão deste grande Bispo católico; este Bispo que escolheu obedecer à Igreja contra as iníquas pretensões dos homens da Igreja, ou efetivamente obedecer a Deus antes que aos homens, ou ainda, como ele dizia, o caminho da “desobediência aparente” para ficar na “obediência real”, preferindo, assim, a glória que vem de Deus à glória que vem dos homens (cf. Jo, 12, 43).
E, porque uma virtude tão heróica floresce apenas na Igreja Católica e pela virtude da Igreja Católica, a Igreja - mais cedo ou mais tarde, não importa - reconhecerá os seus méritos e fará justiça a este grande filho e Bispo.
Para todos os que o conheceram, amaram, seguiram, é hora de recolher sua preciosa herança: o exemplo que Dom Lefebvre deu a todos e, sobretudo, aos ministros da Igreja mostra como se deve servir sempre à Igreja, mas ainda mais nestes tempos dolorosos, com amor, humildade e também inabalável fidelidade, até morrer pela Igreja na humilhação aparente aos olhos dos homens.
        Exatamente como Nosso Senhor Jesus Cristo...