A Redação
de Si Si No No n°3
(março
de 1993)
Sua Excelência Dom Marcel Lefebvre faleceu. Entretanto, não é o vazio que
ele deixa atrás de si, mas uma herança de luz. É para nós um dever de
reconhecimento e também uma necessidade do coração meditar, para a Glória de
Deus, sobre o seu desaparecimento. Colocaremos, em primeiro lugar, não como se
poderia esperar, o testemunho de fé que ele deixou a uma geração extraviada nas
sombras das dúvidas e nas trevas da ignorância, mas antes o testemunho de sua
humildade. Sim, porque este justo, que foi tratado de Bispo “rebelde”, era
antes de tudo um humilde e um manso, e, observando atentamente, todas as suas
admiráveis virtudes floresceram, como é normal para um filho da Igreja Católica, sobre o fundamento de sua humildade e de sua doçura.
A humildade e a doçura de Dom Lefebvre se
manifestavam numa simplicidade apaziguadora que trazia ao espírito de quem dele
se aproximasse a frase de Evangelho: “Se não vos tornardes
como crianças, não entrareis no reino dos céus”
(Mat.
18,3).
Nada mais estranho ao seu coração do que esta
alta ideia de si que dissemina incríveis ruínas na Igreja de Deus. E, não
obstante, até o Concílio, Dom Lefebvre não conheceu senão honras: estimado e
apreciado por Pio XII, foi sucessivamente jovem Bispo Missionário na África,
Vigário Apostólico da África Francófona e, além disto, depois de ter
estabelecido, sem consideração com suas fadigas, a hierarquia local, Arcebispo
de Dakar, Superior Geral dos Padres do Espírito Santo e, enfim, membro
designado por João XXIII da Comissão Preparatória do Concílio. Mas - escreve
Santo Tomás - “alguns, mesmo estando com seu corpo em primeiro lugar, se encontram, não obstante, no último na intimidade de seu
coração” (In Mat., cap. XXIII, 1, 1). E Dom Lefebvre foi um deles.
Ao mesmo tempo, nada foi mais estranho a seu coração
que esta humildade afetada e mal compreendida que “compromete a força da
autoridade” (Santo Agostinho) ou - pior ainda - termina na humilhação da Santa
Igreja de Deus. Ele foi um deses prelados que, embora estejam interiormente “diante
de Deus, com temor, abaixo de todos” (Santo Agostinho), têm a prudência de não a
exteriorizar por gestos que poderiam dar aos súditos “a ocasião de comprometer
sua própria salvação” (S. Tom. II-II, q. 161, a. 3 ad 3). Sua humildade, sua
doçura, sua simplicidade se harmonizam nele admiravelmente com a consciência de
sua própria dignidade e de sua responsabilidade episcopal.
* * *
O humilde é obediente, e Dom Lefebvre, dado que era
realmente obediente à Igreja antes do Concílio, soube continuar também depois.
Um “golpe de mestre de Satanás” o impelia a desobedecer à Igreja em nome da obediência,
aos homens da Igreja que representavam, sob a égide das mais altas autoridades
da Igreja, a “síntese de todas as heresias” (São Pio X). Ele opôs a este “golpe...
de Satanás”, justamente porque era humilde, a verdadeira obediência, que é
hierárquica mas não mutila a hierarquia encerrando-a nos limites do horizonte
terrestre, porque, sendo ela também e antes de tudo sobrenatural, não perde
jamais de vista, atrás do Vigário, o chefe invisível da Igreja. E para
continuar na obediência a Cristo e a sua Igreja - obediência que não se
identifica sempre, e hoje menos que nunca, com a obediência aos homens da
Igreja - Dom Lefebvre escolheu a voz da “obediência real” aceitando a vergonha
da “desobediência aparente”. E aqui aparece outra virtude que brilhou de
maneira eminente em Dom Lefebvre, e não somente aos olhos daqueles que tiveram
o privilégio de o conhecer e amar: o mais completo esquecimento de si mesmo, o
mais absoluto desapego de sua própria pessoa e de toda vantagem pessoal. Na
hora da provação, ele, que tinha sempre servido à Igreja e jamais se havia
servido da Igreja, imitou - como lhe sugerira a Igreja na sua ordenação
sacerdotal - os mistérios que tratava com tanta fé e à imitação de Cristo, deu-se a si mesmo a Ela para ver renascer a Igreja “pura e imaculada”.
O sacrifício de sua vida não lhe
foi pedido, mas sim o da sua reputação e da sua honra. E ele o aceitou com a
maior simplicidade, como se cumprisse o mais comezinho de seus deveres para com
Deus, para com a Igreja, para com as almas.
O humilde não teme o opróbrio e a ignomínia, e Dom
Lefebvre, porque era humilde, aceitou com uma imperturbável serenidade de
espírito as torrentes de lama que despejavam periodicamente sobre ele, numa
concordância significativa, a imprensa laicista que nele via o inimigo, a
imprensa “católica” que havia feito dele o seu único inimigo, deformando sua
figura e ridicularizando o seu combate pela Fé, como se o “caso Lefebvre” se reduzisse
a uma questão nostálgica,
sentimental, até mesmo a uma questão de... latim.
Com a mesma serenidade de espírito ele aceitou que
as autoridades da Igreja, que sabiam o que faziam e que, ainda que já não tivessem fé, possuíam sempre a ciência teológica suficiente para julgá-lo com
justiça, o expusessem à ignomínia pública, justificando, por suas injustas
condenações, todos os insultos possíveis. Foi assim que Dom Lefebvre foi
declarado “nazista”, ele, cujo pai morreu num campo de concentração nazista; foi declarado “racista” (e condenado em apelação
praticamente no seu leito de morte!!!), ainda que houvesse passado sua vida de
missionário na África; foi declarado “rebelde”, ainda que, em face da
desobediência geral, ele continuasse a obedecer heroicamente à Igreja: foi
declarado “cismático”
ainda que
tivesse sacrificado sua reputação para continuar a ser este fiel e digno
príncipe da Igreja que os Pontífices Romanos tinham sabido apreciar até o
turbilhão revolucionário do Vaticano II.
Mas Dom Lefebvre “tornou seu rosto duro como uma pedra” (Isaías, 50, 7) porque não
defendia a sua própria causa: “Não se trata de nós
mesmos - dizia a seus seminaristas -, trata-se da Fé”. E, porque era humilde, o zelo de
Dom Lefebvre não foi jamais amargo. Na sua mansidão ele não se perguntava
por que o ímpio prosperava ao passo que o justo era desprezado, ou então por que,
enquanto ele era desonrado e oficialmente banido da Igreja, todos os semeadores
de erros, de heresias ou de imoralidade encontravam indulgência (é preciso
dizer ainda que, nesta ocasião, tivéssemos querido renunciar a toda polêmica) e favor da Roma pós-conciliar, por que em particular, enquanto se lhe recusava toda
audiência, todos os piores Bispos - sobretudo franceses -, negadores dos dogmas
fundamentais da Fé, promotores da contracepção, do aborto, da homossexualidade,
profanadores da Eucaristia, encontravam infalivelmente crédito e escuta no
Vaticano.
Se, algumas vezes, Dom Lefebvre se deteve a considerar
esta dolorosa realidade, foi só para avaliar e fazer avaliar a gravidade da
crise que atravessa a Igreja, mas nas suas palavras é impossível achar sequer o
menor vestígio de ressentimento pessoal. Ele não amava a polêmica e pessoalmente
não a utilizou senão constrangido pelas circunstâncias e nos limites necessários
e convenientes para dar conta de sua obra, para iluminar as almas, para repelir
a lama das calúnias sistematicamente lançadas sobre o seu “bom combate”.
* * *
O humilde é manso e pacífico, e Dom Lefebvre foi
manso e pacífico com todos. A começar com os seus inimigos, que haviam
decidido em seu coração: “Opprimamus virum iustum
quoniam contrarius est operibus nostris” (eliminemos o justo porque ele condena as nossas
obras ímpias) (Terça-feira da Semana Santa: oficio das Laudes). Com seus
tímidos amigos, os medrosos Pilatos ou os prudentes Nicodemos, que embora o
estimassem e o proclamassem publicamente “um santo”, separaram sua própria
causa da dele para não serem arrastados na mesma ruína. Com estes espíritos, que os excessos da atual crise na Igreja impeliam a outros excessos e que,
não conseguindo arrastar a autoridade de Dom Lefebvre para o seu sedevacantismo,
lhe reprovavam asperamente, como uma imperdoável fraqueza, a virtude da
moderação. Manso também para com aqueles que o haviam seguido na luta, e
depois, terrificados pelo peso da ignomínia de uma aparente separação de Roma e
fascinados pela miragem de uma impossível reconciliação, não se limitaram a
ficar em seu posto para colher todos os frutos possíveis de suas negociações
com o Vaticano, mas se uniram a seus inimigos para lançar-lhe, com maior
encarniçamento do que os seus inimigos, o insulto cruel de “cismático”, para
justificar o seu próprio abandono e até para justificar os compromissos
que se seguiriam inevitavelmente no plano doutrinal, até a lançar-lhe o insulto
injurioso de não saber exatamente o que era a Tradição. Manso com todos, mas
sem fraqueza com ninguém que se aventurasse a acarretar danos à Igreja. É
por isso que ele não deixou a “consciência tranquila aos demolidores da Igreja”
e não teve nenhuma consideração com covardias de algumas almas, caminhando reto
no caminho seguro que tinha escolhido para si e para a sua Fraternidade e que
consistia em preparar o renascimento da Igreja através de uma nova geração de
sacerdotes, para prover as graves necessidades das almas e para “orar a Deus de todo o coração” a fim de que Ele esclareça quem
deve transmitir a Verdade.
* * *
Porque era um humilde, Dom Lefebvre cria. Que
espanto hoje para o povo de Deus escandalizado um bispo que crê nas verdades
imutáveis da Fé com a profundeza de um teólogo e a simplicidade de uma
criança!
E, porque cria com um coração humilde, Dom
Lefebvre foi inflexível em professar publicamente a imutabilidade da Verdade,
que “não nos pertence, não deriva de nós, não foi
inventada por nós”, mas “nos foi transmitida, nos foi dada, foi escrita e vive
na Igreja e em toda história da Igreja”, e na qual todos (em primeiro lugar,
e mais que os fiéis, o Papa e os Bispos) têm o dever de perseverar.
“Não devemos ter medo - dizia a seus seminaristas -, estamos
sobre um rochedo que não depende de nós... Se ele dependesse de nós, poderíamos
ter medo; sou eu, são minhas ideias, eu inventei... alguma coisa nova. Não é
assim, não é o nosso caso”. “Se, aqui, eu não ensino aos senhores a Verdade
católica, partam, caros seminaristas, não fiquem! É seu dever.”
E, quando a crise explode com o Concílio, fazendo
desabar muitas fachadas atrás das quais muitos homens da Igreja escondiam a sua
descrença naquelas verdades, de que então possuíam apenas a ciência teológica,
a fé de Dom Lefebvre, na perseguição de que foi objeto, resplandeceu como ouro
provado no fogo. E foi justamente a perseguição o que fez dele um farol
para tantos filhos da Igreja, os quais, assustados, viam ser-lhes subtraído,
cada dia mais, o pão da Verdade precisamente por aqueles cujo dever era
reparti-lo, viam ser-lhes oferecido o veneno quotidiano da dúvida, do erro,
da heresia. Em todo lugar aonde chegava o eco da sua resistência, o nome de
Dom Lefebvre, apesar da lama com que o recobriam, tornava-se para as almas
retas uma advertência e um encorajamento para perseverarem na Fé de seu
batismo. E assim seus próprios inimigos foram o instrumento escolhido pela
Providência para que ele fosse colocado, sem o ter querido nem procurado, como
uma luz sobre um candelabro, para iluminar tantos filhos da Igreja nas trevas
que desciam, cada vez mais espessas, e escondiam a seus olhos a sua Santa Mãe, “coluna
e fundamento da Verdade” (1 Tm. 3, 15). Sua palavra autorizada, tranquila,
clara, doce, confirmava o “sensus fidei”
de numerosas almas perturbadas pelas inovações radicais. Ele tinha compreendido
que “Cristo é sempre o mesmo ontem, hoje e sempre”, e também sua Igreja, que
nunca mudou nem mudará jamais as suas verdades imutáveis. É por isso que o “espírito
do Concílio” não vem de Deus, e, se as inovações que alteram a fé são impostas
em nome da obediência ao Papa, um bom católico sabe que a fidelidade a Cristo
vem antes da fidelidade a seu Vigário, e que se obedece ao Vigário de Cristo
para pôr-se em segurança e não para pôr em risco sua própria fé. E, se tantos
católicos no mundo inteiro, incluindo os de fora do âmbito da Fraternidade,
se sentiram comovidos por sua morte, é porque eles avaliaram, com o seu
desaparecimento, o que significara para a sua fé a serena mas tenaz
resistência de Dom Lefebvre.
* * *
E, porque era humilde e cria, Dom Lefebvre
esperou. Esperou “contra toda a esperança” na ressurreição da Igreja depois
deste tempo de paixão e de agonia, e nesta firme esperança ele trabalhou para “conservar
a Fé Católica... à espera de que Roma seja libertada dos liberais que a ocupam". E sobre os fundamentos da sua humildade, da sua fé e da sua esperança
floresceu a sua caridade ilimitada e infatigável.
Ele nada programou, mas nada recusou do que a glória
de Deus, a utilidade da Igreja, o bem das almas lhe exigiam que fizesse. E assim seu
zelo apostólico alargou o seu raio de ação à medida que se lhe manifestavam
as graves necessidades dos filhos da Igreja nestes tempos de provação
extraordinária.
No início ele teve um grupo de seminaristas
perturbados pela subversão doutrinária e disciplinar dos Seminários, e é assim
que nasceu a Fraternidade São Pio X.
Depois as almas, na angústia da necessidade
espiritual, voltaram-se para ele e para os seus sacerdotes em número sempre
maior, de todas as partes do mundo católico, e é assim que nasceram os
Priorados, os Seminários, as Ordens Religiosas, as Escolas, as Missões... até o
momento em que Dom Lefebvre se deu conta de que a Providência se havia servido
dele, que teria preferido “ficar na selva do Gabão”, para plantar uma árvore
que estende seus ramos a todos os cantos do mundo católico, a fim de que muitas
almas de boa vontade encontrem abrigo, reconforto, edificação, esperando e
também preparando por sua própria santificação o apaziguamento da tempestade.
E, porque era humilde, Dom Lefebvre
teve
o espírito católico,
universal, próprio
da Igreja. Socorreu as necessidades espirituais mais ocultas, as mais ignoradas (em particular ele abriu suas casas a padres e religiosos, mesmo avançados em idade, que queriam salvar sua própria fé do “aggiornamento”, e dirigiu sua solicitude pastoral para toda obra, mesmo pequena, que seu grande coração sabia reconhecer
útil à Igreja, às almas). Nada foi mais contrário a seu espírito que o exclusivismo no bem, e é por isso
que ele jamais conheceu a tentação de absorver nas sua próprias fundações qualquer outra
iniciativa; mas o seu encorajamento paternal se estendia a quem quer que
combatesse o bom combate da Fé, qualquer que fosse o posto de onde travava o combate.
* * *
A humildade o tornou manso, a caridade o fez
audacioso.
Constrangido a suprir a má vontade ou a negligência
de tantos de seus confrades no episcopado, ele não se recusou nenhuma fadiga,
sem se preocupou com de quem vinha ou a quem devia ser imputado este estado de
urgência; e, sem fazer caso da hostilidade da qual era objeto por causa de seu
zelo, não pensou senão em agir para a glória de Cristo, para a sua Igreja, para
as almas. E sua caridade atingiu o cume do heroísmo quando a iniciativa
desastrosa, e que não será nunca bastante deplorada, de Assis o convenceu de que
o reerguimento esperado estava ainda muito distante. Então, considerou como seu
último dever assegurar, com a continuidade de sua Fraternidade sacerdotal, o
socorro espiritual às almas enquanto durasse a crise da Igreja. Previu o golpe
que o atingiria e que o levaria a morrer oficialmente “excomungado”. Ele que
dizia não ter jamais desejado ir à Terra Santa, porque a Terra Santa - para ele
- era Roma! Mas ele avaliou também o infortúnio de tantas almas que já não tinham
confiança na fé de seus próprios pastores e estavam privadas não somente dos meios
necessários à sua própria santificação, mas até dos meios indispensáveis à
salvação. E então, consultando sua fé, sua esperança, sua caridade, confortado pela
tradição maternal da Igreja de fazer cessar, em caso de extrema necessidade
particular ou de grave necessidade pública, toda reserva sobre o poder de ordem
de seus ministros, a fim de que nenhuma alma se perca por motivos de limitações
jurisdicionais, ele desenvolveu todo o seu poder de ordem consagrando quatro
Bispos “para” sua Fraternidade. As modalidades do ato atestavam com que
espírito Dom Lefebvre executava esta decisão grave: precisando aos futuros
Bispos que ele iria consagrar que lhes conferia unicamente o poder de ordem e
obrigando-os a depor, após o retorno à normalidade na Igreja, “a graça de seu episcopado
nas mãos do Sucessor de Pedro”, Dom Lefebvre confessava e punha a salvo o
Primado de jurisdição do Pontífice Romano e afastava toda a suspeita de querer criar
uma igreja paralela à única Igreja Católica.
Quiseram, não obstante, proclamar um cisma, mas as
almas retas compreenderam que o bom Pastor havia aceitado atingir, por amor a elas, o fundo da abjeção, e elas lhe ficaram agradecidas. A veneração, com a
qual tantos bons filhos cercaram seus restos mortais de Bispo oficialmente “excomungado”,
está aí para atestá-lo.
* * *
Numa entrevista a 30 Dias (março de 1991), o
cardeal Gagnon falou de um “carisma” de Dom Lefebvre, mas ele não parece ter
compreendido que o carisma de Dom Lefebvre provinha de sua santidade. A
santidade, esta flor que não nasce espontaneamente no coração dos filhos de
Adão, a santidade de Dom Lefebvre, feita de todas as admiráveis virtudes que
florescem somente na Igreja Católica, em particular a sua humildade, foi aos
olhos de todos, inclusive dos que não conhecem nem a teologia nem o direito
canônico, o selo impresso por Deus no testemunho dado por Dom Lefebvre à
Fé imutável da Igreja. E a sua morte imprimiu nele o último selo. Prevendo,
contrariamente às previsões dos que o cercavam, seu próprio fim, ele quis todo
o reconforto da Santa Igreja Católica e partiu com uma consciência serena ao
encontro do Divino Juiz, ao qual ele desde muito tempo tinha confiado sua
causa, nada podendo esperar dos homens. E ele se recusava a realizar atos ou
pronunciar palavras que lançassem dúvidas sobre a justeza da causa pela qual
havia lutado e se havia sacrificado a si mesmo.
* * *
Santo Tomás diz que: “Deus permite ao demônio
enganar certas pessoas em certos tempos e em certos lugares, conforme a razão
oculta de seus juízos. No entanto, sempre, pela paixão de Cristo se encontra
preparado o remédio, em virtude do qual é possível proteger-se dos embustes do
demônio mesmo no tempo do Anticristo” (S. Teol., III, q. 49, a. 2 ad 3).
Não sabemos se chegamos aos tempos do Anticristo. É
certo que há tempos do Anticristo e é certo que Dom Lefebvre e sua obra,
enquanto se multiplicava o número de enganadores e dos enganados, são os mais
visíveis remédios oferecidos pela Providência de Deus a tantas almas para
defendê-las da sedução do demônio.
* * *
“Vir obediens loquetur
victoriam”: o
homem obediente cantará vitória, e Dom Lefebvre, por ter sido realmente
obediente, canta já vitória por sua vida, sua morte, sua memória, suas virtudes,
suas palavras, e seus escritos que permanecerão para testemunhar, inclusive nos
Arquivos do Santo Ofício, a retidão deste grande Bispo católico; este Bispo que
escolheu obedecer à Igreja contra as iníquas pretensões dos homens da Igreja,
ou efetivamente obedecer a Deus antes que aos homens, ou ainda, como ele dizia,
o caminho da “desobediência aparente” para ficar na “obediência real”, preferindo,
assim, a glória que vem de Deus à glória que vem dos homens (cf. Jo, 12, 43).
E, porque uma virtude tão heróica floresce apenas na
Igreja Católica e pela virtude da Igreja Católica, a Igreja - mais cedo ou mais
tarde, não importa - reconhecerá os seus méritos e fará justiça a este grande
filho e Bispo.
Para todos os que o conheceram, amaram, seguiram, é
hora de recolher sua preciosa herança: o exemplo que Dom Lefebvre deu a todos e,
sobretudo, aos ministros da Igreja mostra como se deve servir sempre à Igreja,
mas ainda mais nestes tempos dolorosos, com amor, humildade e também
inabalável
fidelidade, até morrer pela Igreja na humilhação aparente aos olhos dos homens.
Exatamente como Nosso Senhor Jesus Cristo...
