A Encíclica Pascendi
Dom
Tomás de Aquino
São Pio X ao terminar a primeira parte de sua magistral encíclica Pascendi escreve que no caminho que
conduz ao aniquilamento de toda religião os protestantes deram o primeiro
passo, os modernistas o segundo e o próximo será o do completo ateísmo.
Vamos pois começar estudando este
primeiro passo que foi dado pelos protestantes, isto é, por Lutero e todos
aqueles que sofreram sua influência. Em seguida, examinaremos o segundo passo
que é o modernismo, suas causas e seu conteúdo doutrinal. Para terminar
examinaremos brevemente o modernismo nas reformas do Concílio Vaticano II.
I. LUTERO E SEUS DISCÍPULOS
Revoltando-se contra a autoridade
doutrinal da Igreja, Lutero vai fazer da liberdade individual o árbitro supremo
em matéria religiosa. Com o seu “livre exame”, Lutero abriu o caminho, como diz
Leão XIII, às variações infinitas, às dúvidas e às negações a respeito das mais
graves questões.
Ele não só ataca a Igreja, mas também a
própria razão.
“A razão, dizia ele, é diretamente oposta
à Fé [...] Entre os fiéis ela devia ser exterminada e enterrada (...) ela é a
prostituta do demônio. Ela só pode blasfemar e desonrar tudo o que Deus fez ou
disse.”[1]
Lutero, antecipando-se aos modernistas e
aos neomodernistas, vai atacar o método escolástico, que faz toda a solidez da
teologia católica.
“É impossível reformar a Igreja”, diz
ele, “se a teologia escolástica e a filosofia não são inteiramente
desenraizadas, assim como o Direito Canônico”. E ainda: “A lógica não tem nenhuma
utilidade em teologia, pois o Cristo não tem necessidade das invenções
humanas”.[2]
Este tesouro da Igreja que é a teologia e
a filosofia escolásticas será sempre combatido pelos inimigos da Igreja.
Descartes (1596-1650), filósofo francês, embora sendo católico, vai igualmente
desprezar a escolástica e dar início à filosofia moderna, também chamada de
filosofia separada. Após Descartes virá Kant, protestante, que marcará a
filosofia com o seu sistema. Kant (1724-1804) é um dos pais do idealismo. Vamos
tentar resumir o seu sistema.
Para Kant, nós só podemos conhecer as
aparências das coisas, ou seja, a realidade acessível aos sentidos, os
fenômenos, como ele diz. Para Kant, a única ciência verdadeira é a Física. A
Física não atinge a essência das coisas, mas só o que está ao alcance dos
sentidos.
A essência das coisas, para Kant, é
incognoscível. Eis porque, para Kant, a filosofia não é uma ciência e nós não
podemos conhecer nem a Deus, nem a alma, nem mesmo a Revelação ou qualquer
intervenção de Deus na vida dos homens.
No entanto, Kant vai, através da moral,
afirmar a existência de Deus, da alma, do Céu, etc. “Eu destruí a razão para
dar lugar à Fé”, diz ele. Mas fazendo isso Kant tira todo fundamento à Fé. Para
Kant a existência de Deus é uma verdade prática. Deve-se dizer que Deus existe
porque é útil afirmar a sua existência, embora não se possa prová-la. Sua
existência é útil e mesmo necessária à moral. Eis o único fundamento para
afirmar a sua existência.
Assim, Kant vai separar as verdades em
dois grupos: as verdades científicas, que são as da Física e as verdades
morais, que não são científicas. Deus, os milagres, a revelação, nada disso
pode ser conhecido com certeza, nada disso é objeto de ciência. É, na verdade,
o que pensam a maioria de nossos contemporâneos, sob a influência dessas
doutrinas.
O sistema de Kant é bastante complexo.
Vamos reter sobretudo o seu agnosticismo, isto é, a doutrina que nega que nós
possamos conhecer a essência das coisas, ou seja, que só podemos conhecer as
aparências sensíveis. Nós veremos esse agnosticismo presente no sistema dos
modernistas.
Ao mesmo tempo que Kant professa o
agnosticismo, ele ensina o imanentismo, isto é, nós encontramos a verdade
dentro de nós mesmos, como se ela fosse fabricação nossa e não adequação de
nossa inteligência com a realidade.
Agnosticismo e imanentismo serão os dois
fundamentos do modernismo.
Após essa brevíssima incursão na
filosofia de Kant, vejamos dois autores protestantes que podemos chamar de
precursores do modernismo: Ernest Daniel Schleiermacher (1768- 1834) e David
Friedrich Strauss (1808-1874).
Como Kant, Schleiermacher dirá que a
religião não tem nenhum fundamento racional. Os milagres, o pecado original, a
divindade de Nosso Senhor nada disso tem fundamento. Avançando por este caminho,
ele dirá que pouco importa saber se Nosso Senhor é Deus ou não, pois a religião
é um sentimento, um puro sentimento.
“Você crê que outrora, há dezenove
séculos, algo aconteceu fora de você e para você. Nós, ao contrário, cremos que
algo se passa em nós; temos nossa fé em Cristo. Porque você quer saber o que é
o Cristo em si mesmo, o que é a Revelação em si mesma, e o que é o milagre em
si mesmo? Esses juízos, não têm nenhum interesse para a alma religiosa.”[3]
Para Schleiermacher, o valor de um dogma,
o valor da religião está na sua utilidade prática. O resto não tem nenhuma
importância. Desta forma, sonhava ele reunir todas as confissões protestantes,
reunindo-as na religião do sentimento, numa religião sem dogma, sem doutrina,
sem nenhum conteúdo intelectual.
Schleiermacher fala de sentimento, de
experiência emotiva e piedosa, a Bíblia mesma é só uma coleção de experiências
religiosas que devem provocar em nós outras experiências.
Para ele, o dogma tem um papel puramente
simbólico para exprimir muito imperfeitamente as diferentes experiências
religiosas. O dogma não deve separar os homens, pois o importante é a
experiência, o sentimento religioso. Sobre esta base pode-se fundar um
ecumenismo tal como desejam os progressistas mais exaltados.
Após Schleiermacher, vejamos Strauss.
Strauss, assim como o seu mestre
Ferdinand Christian Baur (1792-1860), vai se interessar pelo estudo das
Sagradas Escrituras e, seguindo a teoria de Kant sobre a verdade prática e a
verdade científica, ele vai opor o Jesus da história ao Jesus dos Evangelhos.
Ele escreverá uma vida de Jesus na qual ele tenta explicar todos os milagres
como sendo o fruto da imaginação das primeiras comunidades cristãs. Haverá,
então, duas histórias de Jesus. Uma verdadeira, sem milagres, e outra, mística,
com milagres.
II. O MODERNISMO NOS MEIOS CATÓLICOS
Praticamente todas as teses modernistas
já haviam sido professadas pelos protestantes. Nos meios católicos, alguns
sacerdotes foram tomados pelo desejo de não ficar atrás daquilo que lhes parecia
ser um avanço científico dos protestantes alemães. Alguns desses sacerdotes mal
formados e desdenhosos da escolástica se lançaram na leitura dos protestantes e
dos filósofos modernos e adotaram em grande parte as suas teses.
É de todo esse conjunto de falsa ciência,
de curiosidade malsã e de orgulho que vai nascer o modernismo.
Na França, o principal expoente do
modernismo será o sacerdote Alfredo Loisy (1857-1940). E vários outros autores
na França como na Inglaterra e na Itália vão se embrenhar pelo mesmo caminho.
Em fevereiro de 1903, é condenado por Leão XIII um primeiro livro de Loisy. Em
seguida, o Santo Ofício põe no Índex (lista dos livros proibidos) diversos
livros do mesmo autor. Em 1907 São Pio X condena 65 proposições modernistas no
documento Lamentabili. No mesmo ano,
no dia 8 de setembro, é publicada a grande encíclica Pascendi.
III. PASCENDI
A encíclica está dividida
em três partes principais
1. A doutrina modernista
2. A causa do modernismo
3. Os remédios contra o
modernismo
Veremos breve e incompletamente as duas
primeiras partes da encíclica, mas pensamos que será o suficiente para expor o
essencial desta magnífica encíclica, que merece ser lida integralmente e
estudada com maior profundidade do que podemos fazer neste breve artigo. Para
indicar melhor o nexo do que acabamos de ver com a própria encíclica Pascendi, vamos começar pelas causas do
modernismo, isto é, pela segunda parte.
A respeito da origem do modernismo, São
Pio X indica três causas: duas morais e uma intelectual. As causas morais são:
a curiosidade e o orgulho; e a intelectual é a ignorância.
a)
A
curiosidade, como diz São Pio X, se ela não é sabiamente regrada, basta para
explicar todos os erros. A curiosidade é a mesma coisa que o espírito de
novidade. Foi esse espírito de novidade que levou e continua a levar tantos
católicos a ler os autores protestantes assim como os autores modernistas e os
filósofos modernos (Kant, Hegel, Nietzsche, Bergson, Heidegger, Sartre,
Teillard de Chardin, Rahner, De Lubac, Congar, etc.) e, desta forma, acabaram
virando modernistas e perdendo a Fé. É o que se passa nos seminários
progressistas.
b)
A
segunda causa, que é a mais importante, é o orgulho: “Em verdade, diz São Pio
X, nenhum caminho leva mais diretamente e mais depressa ao modernismo do que o
orgulho”.
“Que nos deem um leigo católico, que nos
dêem um padre, diz São Pio X, que tendo perdido de vista o princípio
fundamental da vida cristã, a saber, que nós devemos renunciar a nós mesmos se
quisermos seguir Jesus Cristo, e que não tenha arrancado o orgulho de seu
coração: este leigo, este padre está maduro para todos os erros do modernismo.”
Quanto à ignorância, São Pio X diz:
“Sim, estes modernistas que se apresentam
como doutores da Igreja, que elevam até as nuvens a filosofia moderna e que
olham com tanto desprezo a escolástica, eles abraçaram esta filosofia moderna
enredados pelas suas aparências enganadoras porque, ignorando a escolástica,
lhes faltou o instrumento necessário para discernir os erros e dissipar os
sofismas.”
E São Pio X conclui:
“Sim, é da aliança entre a falsa
filosofia e a Fé que nasceu, repleto de erros, o sistema dos modernistas.”
Passando depois às causas, não mais da
origem, mas da propagação do modernismo, São Pio X indica os ataques feitos
contra a escolástica, contra a Tradição, contra a autoridade dos Padres da
Igreja e contra o Magistério.
*
* *
Mas é tempo de vermos a doutrina
modernista, exposta e condenada pela Pascendi.
Trata-se, como já vimos, da 1ª parte da encíclica. Esta parte está dividida em
sete itens, que são como sete capítulos, nos quais vem exposta toda a doutrina
modernista. Estes capítulos são os seguintes:
1. O filósofo modernista
2. O fiel modernista
3. O teólogo modernista
4. O historiador modernista
5. O crítico (exegeta) modernista
6. O apologeta modernista
7. O reformador modernista
Nós veremos apenas o 1º, o 2º e o 7º
capítulo, ou seja: o filósofo modernista, o fiel modernista e o reformador
modernista.
1. O
filósofo modernista
Os princípios do filósofo modernista são
praticamente os mesmos que já vimos em Kant: o agnosticismo e o imanentismo. O
agnosticismo é o princípio negativo e
o imanentismo é o princípio positivo.
O agnosticismo diz que nós só podemos conhecer os fenômenos, ou seja, as
aparências sensíveis. Todo o resto é incognoscível. Daí se deduz que os
milagres são incognoscíveis, que a Revelação externa, assim como toda
manifestação de Deus na História, é impossível, pois nós não teríamos meios de
conhecê-la.
Assim também, as provas da existência de
Deus, da existência da alma e toda a filosofia são desprovidas de valor. Essas
teorias, sobretudo a negação de que podemos provar a existência de Deus, já
foram condenadas pela Igreja. O Concílio Vaticano I definiu solenemente que a
razão pode provar a existência de Deus a partir das criaturas.
Após destruir as bases do conhecimento,
vem o princípio positivo, que será o imanentismo.
Eis como São Pio X explica essa passagem
do agnosticismo para o imanentismo.
“Eles passam de um a outro da seguinte
maneira: natural ou sobrenatural, a religião, tal como qualquer outro fato,
pede uma explicação. Ora, a teologia natural uma vez repudiada, todo acesso à
revelação suprimido pela rejeição dos motivos de credibilidade, toda a
revelação externa inteiramente abolida, é claro que a explicação da existência
da religião não deve ser procurada fora do homem. É, então, dentro do homem
mesmo que ela se encontra, e como a religião é uma forma de vida, a religião
deve se encontrar na vida mesma do homem. Eis aí a ‘imanência religiosa’.”
E São Pio X prossegue:
“Todo fenômeno vital ― e a religião é um
deles, como eles dizem ― tem por primeiro estimulante uma necessidade, e como
fundamento este movimento do coração chamado sentimento.
Por conseguinte, como o objeto da
religião é Deus, devemos concluir que a fé, princípio e base de toda a
religião, se deve fundar em um sentimento, nascido da necessidade do divino.”
Desses dois princípios vão decorrer
inúmeras consequências.
Pelo primeiro princípio, que é o do
agnosticismo, os modernistas negam que a inteligência possa provar a existência
de Deus. Daí se deduz que Deus não é objeto de ciência e que Deus não pode ser
objeto da história. Deste princípio, somado ao princípio da imanência vital,
isto é, de que a religião é objeto só de sentimento, se conclui que:
1. A ciência, assim como a história, não
tem Deus por objeto e, portanto, deve ser ateia, na prática.
2. A Fé é um sentimento.
3. A Fé não vem “pelo ouvido”, como
ensina São Paulo, mas vem do subconsciente do próprio homem.
4. A revelação tem sua origem também
nesse sentimento e, por isso, a consciência religiosa de cada um não está
submetida à autoridade da Igreja.
5. O sentimento religioso transformou os
fatos reais dos Evangelhos, e, portanto, é preciso suprimir dos Evangelhos tudo
o que não está de acordo com a ciência.
6. Todas as religiões provêm do mesmo
sentimento religioso e, portanto, todas as religiões são verdadeiras.
7. A religião católica nasceu da
consciência de Jesus Cristo segundo as leis da imanência.
8. O dogma é uma expressão imperfeita do
sentimento religioso e, portanto, o dogma pode e deve evoluir na medida em que
o sentimento religioso evolui.
9. As fórmulas religiosas (ou dogmas)
devem ser vivas, assim como o sentimento religioso.
10. Para permanecerem vivas, as fórmulas
religiosas devem estar sempre adaptadas ao fiel e à sua fé. No dia em que essa
adaptação cessa, elas perdem a sua razão de ser. Daí o pouco caso que os
modernistas fazem do dogma.
Como se pode ver, e segundo a expressão
de São Pio X, os modernistas chegaram a esta loucura de perverter a eterna noção
da verdade. Para eles, a verdade não é a adequação da inteligência com a
realidade (natural ou sobrenatural), mas sim a adequação da inteligência com o
sentimento, com a vida, isto é, com algo que não tem conteúdo inteligível.
E, ao mesmo tempo que os modernistas se
perdem em suas loucuras, eles têm a audácia de repreender a Igreja por se
apegar teimosamente e esterilmente a fórmulas vãs e vagas, segundo eles,
enquanto que ela, a Igreja, deixa a religião correr à sua ruína, dizem eles.
Como exemplo dessa audácia dos
modernistas, podemos citar os ataques feitos à palavra transubstanciação (a
qual significa a transformação da substância do pão e do vinho em Corpo e
Sangue de Nosso Senhor, no momento da Consagração). Podemos dar ainda como
exemplo a definição da missa, a doutrina do reinado social de Nosso Senhor e a
própria encíclica Pascendi julgada
antiquada pelos neomodernistas. Tudo isso para os modernistas deve mudar com a
vida e com o “progresso” da humanidade (os comunistas têm uma doutrina semelhante,
ao dizer que o modo de pensar muda cada vez que mudam as estruturas
econômicas).
2.
O fiel modernista
Para o filósofo modernista, Deus só é
objeto de sentimento. Se Ele existe ou não, isso não o interessa. Mas, para o
fiel modernista Deus existe em si mesmo, independentemente do homem. E como o
fiel modernista chega a essa certeza? Pela experiência individual. Assim, se os
modernistas se separam dos racionalistas, é para adotarem a doutrina dos
protestantes e dos pseudomísticos.
Eis como os modernistas explicam essa
certeza da existência de Deus. “Se nós penetramos o sentimento religioso,
descobrimos aí facilmente certa intuição do coração, graças à qual e sem nenhum
intermediário, o homem atinge a realidade mesma de Deus”.
E se perguntamos que tipo de conhecimento
pode produzir essa intuição do coração, eles respondem: “Uma certeza da
existência de Deus que ultrapassa toda certeza científica. Trata-se de uma
verdadeira experiência, superior a todas as experiências racionais”. E se
perguntamos por que há então homens que negam a existência de Deus, o fiel
modernista dirá que é porque eles não se põem nas condições morais necessárias
para fazer essa experiência. Desta forma, os modernistas suprimem toda
atividade propriamente racional da Fé. A Fé modernista é irracional; ela é puro
sentimento.
Tudo isso é evidentemente contrário à Fé
católica e abre o caminho para o mais completo relativismo, pois se isso fosse
verdade, todas as religiões seriam verdadeiras. E é isto que observa São Pio X
ao escrever: “Uns de maneira velada e outros abertamente, todos eles afirmam
que todas as religiões são verdadeiras”. E como poderiam eles negar essa
conclusão? “Isto não poderia ser feito senão mostrando a falsidade do
sentimento ou da fórmula (dogma) que o exprime. Mas, segundo eles, o sentimento
é sempre e em toda parte o mesmo, substancialmente o mesmo, e quanto à fórmula
religiosa, expressão do sentimento religioso, tudo o que eles pedem é que ela
esteja adaptada ao fiel e ao mesmo tempo à sua fé”.
Mas os modernistas não reivindicam uma
superioridade da religião católica sobre as outras? Sim, mas uma superioridade
de grau e de não de natureza, pois, dizem eles, “ela é mais verdadeira porque
ela é mais viva”.
De todos esses erros eles tiram consequências
importantes a respeito da Tradição, assunto que nos interessa de maneira toda
especial, porque no documento que excomungou Dom Lefebvre e Dom Antônio de
Castro Mayer estava dito que eles não tinham uma noção acertada de Tradição.
Escutemos São Pio X:
“Outro ponto a respeito do qual os
modernistas se põem em oposição flagrante com a fé Católica é que eles
transferem para a Tradição o princípio da experiência religiosa. A Tradição,
tal como a entende a Igreja, se encontra totalmente arruinada”.
Antes de demonstrar o conceito que os
modernistas têm da Tradição, vejamos o que ensina a Santa Igreja: A fonte da Fé
é uma só: é a Revelação. Mas a Revelação foi transmitida aos homens de duas
formas. Escrita e oral. A escrita é a Sagrada Escritura, a oral é a Tradição.
Nesse sentido, diz o Concílio Vaticano I, seção III, cap. III Denz. 1792: “Fide
divina et catholica ea omnia credenda sunt, quae in verbo Dei scripto vel
tradito continentur...” (Deve ser crido com fé divina e católica tudo o que
está contido na palavra de Deus escrita ou transmitida). Aqui, a palavra
“transmitida” significa a Revelação sob forma oral, na medida em que ela não
faz parte da Sagrada Escritura.
A palavra Tradição se entende também como
sendo todo o Magistério infalível da Igreja, isto é, todos os dogmas ensinados
pela Igreja. A Tradição possui uma anterioridade sobre a Escritura, porque a
Santa Igreja foi constituída por Nosso Senhor antes que qualquer livro,
Evangelho ou epístola, fosse escrito.
Vejamos agora o que dizem os modernistas.
Para eles a Tradição é a “comunicação feita a outros de alguma experiência
original, através da pregação e por meio de uma fórmula intelectual”. Que
valor, que virtude atribuem eles a essa fórmula intelectual? “A essa fórmula
intelectual, além da sua virtude representativa, como eles dizem, eles atribuem
ainda uma virtude sugestiva”. Qual o papel dessa virtude sugestiva? Seu papel
“se exerce sobre o fiel, para despertar nele o sentimento religioso, adormecido
talvez, ou ainda para ajudá-lo a renovar as experiências já feitas ou para
gerar nos descrentes o sentimento religioso e conduzi-los às experiências que
se deseja para eles”.
“É assim, dizem eles, que a experiência
religiosa vai se propagando através dos povos e não somente entre os
contemporâneos, pela pregação propriamente dita, mas também de geração em
geração, por escrito ou pela transmissão oral”. “A verdade de uma tradição
seria, então, medida pela sua sobrevivência, de tal modo que se ela for viva
ela é verdadeira, se ela se perder ou diminuir, ela é falsa ou menos verdadeira
ou era verdadeira e não é mais”, podemos concluir:
Um neomodernista antes do Concílio dizia:
“Toda teologia que não é atual é falsa”. Eis aí uma doutrina puramente
modernista. Daí a importância dada pelos modernistas à expressão “Tradição viva”.
Aliás, os modernistas têm sempre a palavra vida e seus derivados nos lábios.
Tradição viva, magistério vivo, Rede Vida, imanência vital. Algumas dessas
expressões podem ter um significado correto, pois não se pode excluir a palavra
vida do vocabulário, mas é de se notar que são expressões caras aos modernistas
e que, para eles, têm um significado especial. Para o modernista, tudo o que
tem vida é verdadeiro. Por isso, todas as religiões existentes, ou seja, vivas,
são verdadeiras.
Vejamos agora as relações entre a Fé e a
ciência. Antes de mais nada, lembremos que ao condenar o agnosticismo, São Pio
X lembra que é de Fé definida que a razão humana pode provar a existência de
Deus a partir das criaturas. Este dogma foi definido pelo Concílio Vaticano I.
Ora, para os modernistas não há nada em comum entre a Fé e a ciência. Deus não
pode ser conhecido pela razão de modo algum. “O objeto da Fé é justamente o que
a ciência declara ser ‘incognoscível’. Daí dois campos inteiramente distintos: a
ciência se ocupa dos fenômenos e a Fé não tem nada a dizer em relação a eles.
Por sua vez, a Fé se ocupa do que é divino e a ciência não tem nada o que dizer
a respeito”. Logo, não pode haver conflito entre a ciência e a Fé, já que cada
uma tem objetos inteiramente distintos. Como elas nunca se encontram, elas
podem discordar entre si.
Mas se nós objetarmos que há realidades
visíveis, que são objetos tanto da ciência como da Fé? Por exemplo, a vida de
Nosso Senhor Jesus Cristo. Que respondem os modernistas? Eles dizem que foi a
Fé que transfigurou a vida de Nosso Senhor e, assim, a Fé subtraiu a vida de
Nosso Senhor do alcance da ciência, transportando-a ao nível do divino, que
está acima da realidade sensível. Mas se nós perguntarmos: E os milagres e as
profecias? Nosso Senhor não fez milagres e não profetizou vários
acontecimentos? Não, responde a ciência agnóstica. Sim, responde a Fé
modernista. Eis aí a doutrina deles.
Mas isto não é uma flagrante contradição?
Não, respondem eles, pois a negação dos milagres e das profecias vem do
filósofo falando a filósofos e, portanto, considerando a vida de Jesus Cristo
segundo a verdade histórica, enquanto que a afirmação do fiel se dirige a
outros fiéis. Ora, o fiel considera a vida de Jesus Cristo como “vivida de
novo” pela Fé e na Fé.
Eis aí o que parece ser uma loucura
completa. No entanto, se nós procuramos ir mais a fundo na teoria modernista,
nós veremos que a Fé acaba sendo sujeitada à ciência.
“Muito se enganaria, diz São Pio X, quem,
postas estas teorias, se julgasse autorizado a crer que a ciência e a fé são
independentes uma da outra. Por parte da ciência, essa independência está fora
de dúvidas; mas, já não é assim por parte da fé, que não por um só, mas por
três motivos, se deve submeter à ciência”. Podemos resumir esses motivos como
se segue:
1ª. Porque as fórmulas religiosas
pertencem ao mundo dos fenômenos e, por isso, estão submetidas à ciência.
2ª. Porque se a Fé tem Deus por objeto e,
assim, escapa à ciência, a ideia que se faz de Deus, pertencendo à ordem da
lógica, está subordinada à ciência. A ciência deve controlar a ideia de Deus e
adaptá-la à evolução intelectual e moral dos povos.
3ª. A unidade da pessoa humana e do
pensamento impõe a submissão da Fé à ciência.
Tudo isso é, evidentemente, contrário a
toda a doutrina Católica, que ensina que a filosofia é a serva da teologia e da
Fé, e não o contrário.
É por causa dessas contradições, ao menos
na aparência, que se nós lermos um livro modernista encontraremos numa página a
perfeita doutrina católica, e ao virar esta página encontraremos uma doutrina
cheia de heresias, como diz São Pio X.
Ao escrever a história, o modernista será
um racionalista que nega o sobrenatural, mas se ele prega numa igreja, ele fala
a linguagem da Fé. Como historiador, ele desdenha os Padres da Igreja e os
Concílios, mas se ele dá o catecismo, ele cita essas mesmas fontes com todo
respeito.
Mas em tudo os modernistas dão a última
palavra à sua falsa ciência, e arruínam a Fé Católica.
Mas já é tempo de terminar. A matéria é
vasta demais para ser exposta de uma só vez, numa simples introdução à Pascendi. Vamos, pois, passar ao último
ponto da doutrina modernista, fazendo uma breve aplicação à situação atual e ao
Concílio Vaticano II, e assim terminaremos.
3.
O reformador modernista
O sétimo e último item da doutrina
modernista diz respeito ao reformador modernista. Este reformador, diz São Pio
X, quer tudo reformar na Igreja e suas reformas se fazem pela ruptura com o que
a Igreja sempre fez.
Este tema é importantíssimo na crise
atual. É o tema da ruptura e da continuidade. As reformas da Igreja se fazem
sempre num espírito de continuidade. As reformas modernistas se fazem num
espírito de ruptura.
São Pio V reformou o missal em
continuidade com o passado. Paulo VI publicou um novo missal em ruptura com o
que se fazia antes.
São Pio X fez o decreto da comunhão frequente
em continuidade com o passado, como ele mesmo disse no texto do decreto. O novo
Direito Canônico permite que a comunhão seja dada a não católicos e isto em
ruptura com o que a Igreja sempre fez.
A proclamação dos dogmas está sempre em
continuidade com a doutrina professada pelos papas ao longo da História da
Igreja. A Declaração sobre a Liberdade Religiosa está em ruptura com o que a
Igreja sempre ensinou. No entanto, Bento XVI quer convencer o mundo católico de
que entre o Vaticano II e a Tradição da Igreja não há ruptura. Isto só faz
adensar as trevas nas quais se encontram as inteligências de hoje. Podemos
dizer que isto é o suprassumo do modernismo, a não ser que Bento XVI reforme a
doutrina do Vaticano II, condenando-o vigorosamente em tudo o que ele se opõe à
Tradição. Mas será isto que ele fará? Quem viver verá. De nossa parte, tememos
que ele aumente a confusão doutrinal que assola a Igreja.
Mas vejamos o reformador modernista, a quem,
como vimos, a ruptura com o passado não assusta. Veremos como muitas das
reformas pedidas por ele foram atendidas pelo Concílio Vaticano II e os Papas
pós-conciliares.
São Pio X fala da “mania de reformar” dos
modernistas.
“Nada, absolutamente nada há no
catolicismo que eles não ataquem”, afirma São Pio X.
Eis alguns exemplos, tirados todos da Pascendi.
a)
Reforma da filosofia, sobretudo nos seminários.
“Eles (os modernistas) pedem que se
relegue a filosofia escolástica à história da filosofia, entre os sistemas
ultrapassados e que se ensine a filosofia moderna”.
É o que já está feito. Mesmo antes do
Concílio, o Papa atual Bento XVI assim como o seu antecessor João Paulo II não
se formaram com a escolástica, mas sim com a filosofia moderna, ou melhor, eles
conheceram as duas, a escolástica e a filosofia moderna, mas optaram pela
filosofia moderna.
b)
A separação entre a Igreja e o Estado
“Sim, diz São Pio X na Pascendi, os modernistas pedem a
separação da Igreja e do Estado, assim como a do católico e do cidadão”. A
razão dada é que para os modernistas a Igreja não foi instituída diretamente
por Deus.
“E não basta para os modernistas que o
Estado seja separado da Igreja. Assim como a Fé deve se subordinar à ciência,
(...) assim é necessário que nos assuntos temporais a Igreja se submeta ao
Estado” dizem eles. E isto foi realizado pelo Concílio Vaticano II com o
documento Dignitatis Humanae e com a
política do Vaticano, que fez pressão junto aos governos católicos para que se
retirasse da Constituição o artigo que fazia desses países, países oficialmente
católicos. Isto se deu com a Colômbia, Espanha e alguns outros estados.
c)
Reforma do governo da Igreja
“Que o governo eclesiástico seja
reformado em todos os seus setores; sobretudo a disciplina e a dogmática, dizem
eles. Que o seu espírito e os seus procedimentos externos sejam adaptados à
consciência moderna, que se inclina para a democracia. Que se confie uma parte
do governo ao clero inferior e mesmo aos leigos. Que a autoridade seja descentralizada”.
Vaticano II com o decreto sobre a
colegialidade, e as diversas medidas tomadas por Paulo VI e seus sucessores,
introduziu o princípio democrático dentro da Igreja.
A autoridade do Papa ficou diminuída
diante dos Bispos.
A autoridade dos Bispos ficou diminuída
por causa das conferências episcopais.
A autoridade dos párocos ficou diminuída
por causa dos conselhos paroquianos.
Dentro das comunidades religiosas, a
autoridade dos superiores ficou diminuída por causa da vaga de contestação e de
desobediência que penetrou em toda parte.
d) Reforma
das Congregações Romanas, dos ritos dos Sacramentos, do Direito Canônico, etc.
Os modernistas, como diz São Pio X na Pascendi, pedem sobretudo a reforma do
Santo Ofício e do Índex, duas congregações que velavam sobre a doutrina.
Ora, o Santo Ofício teve o seu nome
modificado e sua importância diminuída. Quanto ao Índex, ele foi suprimido. O Índex
estabelecia o catálogo de livros proibidos.
Além destas reformas que indicamos, há
várias outras, pois, como diz São Pio X, o modernista tem a mania reformista.
Qual foi a instituição da Igreja, qual o
Sacramento, qual foi o ritual, qual foi a prática de piedade, qual o ponto de
doutrina que não foi modificado, atacado ou suprimido após o Concílio?
Todos os Sacramentos tiveram o seu rito
modificado: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema-Unção, Ordem
e Matrimônio. Todos sofreram modificações.
O Direito Canônico foi refeito para
adaptá-lo ao Concílio Vaticano II.
As congregações romanas foram
profundamente modificadas.
Foi feito um novo catecismo, enquanto que
o Catecismo do Concílio de Trento (Catecismo Romano) e o Catecismo de São Pio X
foram postos de lado.
A Via Sacra e o Rosário receberam
acréscimos ou modificações.
As práticas de devoção tradicionais foram
desprestigiadas. A disciplina das indulgências foi modificada. O calendário dos
dias litúrgicos foi alterado, assim como o processo da canonização dos santos.
A doutrina, enfim, sofreu e sofre ainda
ataques de toda parte, assim como a exegese, que é o estudo da Sagrada
Escritura. Apenas para recordar alguns pontos: o dogma “fora da Igreja não há
salvação” foi atacado; o dogma “A Igreja de Cristo é a Igreja Católica” foi
posto em dúvida e a existência do limbo é igualmente posta em dúvida.
Seria difícil fazer a lista de todos os
pontos de doutrina atacados pelos modernistas de hoje. Basta dizer que o
modernismo na sua forma atual triunfou no Concílio e continua a triunfar,
apesar de alguns atos contrários à correnteza revolucionária e reformista que
domina o Vaticano.
Para concluir, lembremos que São Pio X
diz que o sistema dos modernistas é como um corpo perfeitamente organizado. Não
se pode adotar um ponto sem admitir todos os outros. Lançando um olhar sobre
todo o sistema modernista, São Pio X não pode deixar de classificá-lo de
encruzilhada ou reunião de todas as heresias. Se alguém, diz ele, se desse ao
trabalho de recolher todos os erros que já existiram contra a Fé e de
concentrar a substância como um suco formado de todos eles, ele não poderia fazer
nada de mais bem sucedido que o sistema modernista.
Após ter explicado minuciosamente este
sistema, São Pio X sente a necessidade de explicar como o agnosticismo tendo
fechado a porta para Deus do lado da inteligência, é em vão que ele tenta abrir
outra porta do lado do sentimento, pois, diz São Pio X, o que é o sentimento
senão uma consequência diante da ação da inteligência ou dos sentidos? Retirai
da inteligência e o homem seguirá os piores instintos. A emoção, o sentimento e
tudo o que cativa a alma, longe de favorecer a descoberta da verdade, entravam
a sua aquisição. O sentimento e a experiência sozinhos, sem serem esclarecidos
e guiados pela razão, não conduzem a Deus. Por isso, o sistema modernista
conduz ao aniquilamento de toda religião e ao ateísmo. Pior do que isso, a
doutrina da imanência divina conduz diretamente ao panteísmo, porque ela não
distingue suficientemente o homem de Deus, e que, certamente, preparará a vinda
do Anticristo.
Para terminar, recordemos o que São Pio X
nos diz desta queda progressiva do espírito humano.
“O primeiro passo foi pelo
protestantismo, o segundo, pelo modernismo; o próximo será o do ateísmo”. Com o
Concílio Vaticano II, triunfou o modernismo ou neomodernismo carregado nas
costas pelo liberalismo, que procura, a todo custo, se harmonizar com o mundo
moderno. Desta forma, vimos algo nunca visto na história da Igreja: um concílio
ecumênico promover uma doutrina contrária à doutrina da Igreja.
Diante deste fato, não podemos deixar de
pensar no que diz São João no Apocalipse (cap. XIII), quando ele viu uma besta
subindo do mar, que representa o poder político, o governo mundial e sobre sua
cabeça ela trazia a blasfêmia. E os homens adoraram a besta e o dragão que deu
o poder à besta. E São João viu outra besta subindo da terra, que tinha os
chifres semelhantes ao Cordeiro, mas que falava como o dragão e induzia os
homens a adorarem a besta que saía do mar. Podemos pensar que esta misteriosa
figura representa os homens da Igreja, que trazem as insígnias do Cordeiro, isto
é, de Nosso Senhor, mas que falam como o dragão, isto é, o como demônio,
ensinando a heresia e, acima de tudo, o condensado de todas as heresias, que é
o modernismo.
Que o exemplo de Dom Lefebvre e de Dom
Antônio de Castro Mayer e a intercessão de Nossa Senhora nos guardem sempre na
pureza imaculada de nossa Fé e que esta inspire todos os nossos atos, pois a Fé
age pela caridade, a qual nos obtém a vida eterna.